Ser mulher viajante é…

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Pin It Share 0 Filament.io 0 Flares ×

mulher viajante

Ser mulher viajante é igual ser homem viajante. Calma, eu sei que homens e mulheres têm as suas diferenças, mas na hora de explorar o mundo o esquema é o mesmo: a gente sonha, a gente planeja, a gente economiza grana, a gente tem medinho de avião, a gente enfrenta perrengue e a gente curte cada momento do mesmo jeito.

Mas ao mesmo tempo ser mulher viajante é diferente: a gente tem que se preocupar com violência, com assédio, com medo, com julgamento alheio, com fofoca da vizinha e com falta de apoio da família, entre muitas outras coisas. Por isso, mesmo que estejamos em pleno 2017 viajar sozinha, até entre amigas, é um ato de coragem, um ato de afirmação e rebeldia. Ser mulher viajante é dizer pra todo mundo ouvir que lugar de mulher é onde ela quiser.

E nesse Dia Internacional da Mulher, a gente quis celebrar a mulherada que coloca a mochila nas costas e vai realizar sonhos. Queremos homenagear as mulheres que se viram lindamente bem por aí, que se apaixonam por lugares e por pessoas, que são felizes e realizadas por desconhecerem limites geográficos. Confiram essas histórias:

Porque ser mulher viajante é…

Ter medo

Stefania e a plantação de maconha depois de uma noite de medo no Marrocos
Stefania e a plantação de maconha depois de uma noite de medo no Marrocos

A Stefania Franzoi Pilz resolveu se aventurar pelo mundo (ela conta tudo na página MUDA – Meu Único Destino é Arriscar), e depois de fazer o Caminho de Santiago e passar pela Espanha, resolveu conhecer o Marrocos. Ela tem muitas histórias bacanas, mas a gente selecionou uma que é emblemática entre as mulheres viajantes. Confere:

“Conheci duas austríacas, e junto com a canadense que estava me acompanhando no Marrocos, tivemos a ideia de acampar em um parque nacional. Chegamos no parque meio tarde e queriam nos cobrar um absurdo pra acampar e as gurias não queriam pagar. Uma delas conhecia um cara que tinha casa lá, só que ele não estava. Daí apareceu um cara, e se ofereceu pra ajudar. Nos mostrou um lugar, e lá eles tratavam maconha, e tinham uma plantação (são várias no norte do Marrocos). Eu me assustei, não queria ficar ali, falei pras meninas que não ficaria ali. Então esse cara sugeriu que a gente ficasse no terraço da casa dele. Também fui contra, mas já tinha escurecido e fui voto vencido.

Eu estava com muito medo, mas as outras meninas ficaram empolgadas com a ideia de dormir sob as estrelas no Marrocos. Me agarrei no meu spray de pimenta e sugeri pras meninas que tirássemos fotos com ele, pra que ele pensasse que nossas famílias sabiam onde estávamos e com quem. No fim das contas não aconteceu nada, não fomos sequestradas. A casa dele era muito simples, sem banheiro e nem água encanada, e ele morava com os pais idosos.

A parte ruim é que depois de arrumar o terraço, ele disse que ia dormir com a gente. As outras meninas não contestaram e ele ficou por ali. Parece que no meio da noite ele tentou se aproximar, mas não aconteceu nada. Mas ele tinha intenção, se pudesse teria rolao alguma coisa.

Quando acordamos eu só queria sair de lá e me livrar daquele cara. Nos levantamos e ele nos disse que tinham dois caminhos, e ele nos levou pelo mais difícil pra descer, tanto que cheguei a cair. Ele estava super impaciente, acho que porque não fomos tão amistosas. Mas sei que acordei de manhã e estava em uma plantação de maconha, por todos os lados. Porém, a sensação que eu tive foi de que essa foi uma exceção. Não me senti insegura no Marrocos, e inclusive recebi ajuda de muitos homens”.

Viver situações engraçadas

Luciana viajou sozinha no Dia dos Namorados, e encontrou o quarto assim...
Luciana viajou sozinha no Dia dos Namorados, e encontrou o quarto assim…

A Luciana, do blog Let’s Fly Away, ama viajar com os amigos e o namorado, mas diz que não tem nada mais gostoso do que viajar sozinha. Ela curte vivenciar a liberdade sem limites que só uma viagem solo oferece, mas já viveu situações inusitadas por conta disso.

“No Carnaval de 2015 fui sozinha para Santiago no Chile. Lá estava se comemorando o dia dos namorados. Pois bem… sai para um passeio por vinícolas no Vale de Casablanca e no final do dia ao chegar no hotel encontro a cama coberta de pétalas de rosas e uma caixinha de chocolate! Super mega romântico. A minha primeira reação foi pensar “estou no quarto certo?”. A segunda foi cair na gargalhada, deitar com as flores e cair no chocolate! Depois de ter passado o dia inteiro bebendo vinho foi ótimo! Afinal, mereço todo carinho do mundo”, contou.

Se perder pra se encontrar

17200128_10208309875000233_837447781_o

A Lidiane Gomes resolveu se jogar no mundo depois de uma demissão. Mais do que paisagens, ela encontrou histórias e vivências que mudaram sua visão do mundo. Confere:

“Tudo começou com uma demissão. Mas ao invés de ficar pra baixo ou me submetendo à empregos que não eram da minha área, peguei o dinheiro da rescisão e resolvi viajar. Como era uma época difícil para muitos fui sozinha mesmo para minha primeira viagem internacional. As apreensões foram muitas, não só por não ser fluente em inglês, mas por também estar lidando com culturas diferentes, onde um simples gesto pode significar um insulto. A solução foi me acalmar e prestar atenção, não ficar de bobeira e ter iniciativa.

Foram 28 dias, 5 países e 10 cidades; 1 cidade medieval, 2 campos de concentração, 1 palácio, 1 castelo, 1 museu, 2 bibliotecas históricas, 1 biblioteca de acesso restrito, 3 free walking tours, 3 amigos visitados, 2300 fotos, um número de igrejas, capelas e catedrais que tive que parar de contar e um sonho realizado. Das histórias vividas (se deixar eu escrevo tudo e vira livro!), destaco quando cheguei à Praga, na República Tcheca, e pensei que seria muito difícil me virar entre os habitantes locais, principalmente porque o inglês não é uma língua muito falada fora do centro da cidade. Mas os tchecos não são um povo muito falante, então até para ir no supermercado foi simples. Andar de metrô, ônibus e trem era mais fácil ainda!

Depois fui para Viena encontrar minha prima, e posso dizer que ali foi onde descobri a minha frieza para as situações. Quando desci do trem li a placa de saída e segui a direção indicada; sim, ali tinha uma saída, mas não a mais utilizada, e de repente me vi cercada de pessoas falando uma língua que eu não entendia. Andei no meio dessas pessoas para tentar achar alguém da estação que pudesse me orientar e nada, até que eu li um papel grudado na parede: refugiados. Primeiro pensamento: volta pelo caminho que tu veio, pois deve ter algo na outra ponta.  Ali que vi como é difícil ser um refugiado e depender da ajuda dos outros; tu ter que sair da tua casa, deixar tuas coisas, largar tua vida, para ter uma chance de viver, só que sem saber para onde e como.

Também destaco a visita ao campo de concentração de Auschwitz. Na parte administrativa, onde tem os prédios bonitos, fiz a visita com a guia, que foi muito boa, mas quando fomos à Birkenau, onde ficavam os galpões e as duas grandes câmaras de gás, acabei me distanciando do grupo sem querer. Não me arrependo, pois as placas sinalizam bem o local, e foi ótimo ter ficado sozinha nesse momento, nesse imenso local. Sim, o local é tão grande que não conseguiria chegar às suas bordas só com o período da tarde que dispunha. Nesse momento toda a história desse local me abateu e não pude controlar as lágrimas. Foi inevitável pensar, que mesmo achando que não fiz muito nessa vida, o quão longe já fui, o quanto mais já vivi do que os que passaram por ali.

Viajar sozinha foi uma das melhores descobertas que fiz e certamente farei mais vezes. Ainda mais que agora em 2017 me sinto mais empoderada do que nunca! Não é só sobre descobrir novos lugares, culturas e jeito de viver, mas também descobrir sobre você, do que é capaz, da sua força, de abraçar o mundo, a vida e o viver”.

Se jogar no desconhecido por amor

Roberta se jogou de cabeça em uma história de amor em outro país
Roberta se jogou de cabeça em uma história de amor em outro país

Quem nunca fez loucuras pra viver um amor? A Roberta Landeweerd, do blog Holandesando, foi de mala e cuia pro interior da Holanda pra viver uma paixão – que virou casamento! A gente já entregou o final feliz, mas vale a pena ler o relato:

“Minha primeira viagem sozinha foi em 2009. Também foi a minha primeira viagem internacional: 11 horas de voo direto para a Holanda. Mas o que dá na cabeça de alguém de fazer as malas e falar: #PartiuHolanda? No meu caso, foi o meu então namorado, um holandês que eu havia conhecido no Brasil. Depois de passarmos um mês juntos ele teve de retornar ao país dele. A saudade apertou e meses depois era eu quem estava em Arnhem, interior da Holanda.

Claro que ajuda muito viajar e ter onde e com quem ficar. Mas, principalmente para uma mulher, há outros fatores a se considerar.
A minha maior preocupação, sem dúvida, foi: como eu, uma mulher, brasileira e viajando sozinha, vou ser tratada no exterior? Será que agora, longe de casa, eu vou ser tratada da mesma forma pelo meu namorado? E a família dele, vai me receber bem? E os holandeses em geral?  Resumindo: será que vou sofrer preconceito?

Sobre essa última questão, eu cheguei até a fazer um vídeo respondendo. No final, minha experiência foi tão positiva, mas tão positiva, que nós nos casamos e eu me mudei para a Holanda em definitivo.

Mas não foi só isso. Desde a minha primeira vinda para cá, para não passar o dia mofando em casa enquanto o namorado trabalhava, o meu passatempo era viajar pelo país, sozinha mesmo. Foi tudo tão legal que a ideia cresceu e virou o Holandesando, onde eu mostro a Holanda além de Amsterdã.

O meu conselho para quem está na dúvida: desafie-se. Viajar sozinha é mais que simplesmente ir a outro lugar: é viajar para dentro de si mesma e descobrir novas possibilidades. Palavra de quem se jogou de cabeça e hoje tem uma vida completamente diferente de oito anos atrás”, relata.

Desconfiar sempre

100_2939
Mari flertando com o perigo na primeira viagem solo ao Rio

E, claro, não podem faltar as nossas histórias. Pra começar, um relato da Mari no Rio de Janeiro:

“Eu sempre curti fazer as coisas por conta própria, ir ao cinema, almoçar, passear… então quando eu viajei pela primeira vez sozinha não foi tanto uma novidade esse conceito de andar solita por aí.

Mas sendo mulher, infelizmente não dá pra fugir do assédio diário. Nas minhas peregrinações por aí tem história como o convite pra sair de um mariachi em Roma, uma “perseguição” nas ruas de Dublin e o caso do encanador que não consertou o nosso boiler na véspera de Natal porque estava mais interessado em encarar meus peitos (cobertos com várias camadas de roupas, diga-se de passagem) do que prestar atenção na minha explicação do problema.

Mas queria dar ênfase pra um causo da minha primeira viagem sozinha. Foi em 2009, pro Rio de Janeiro. Eu tinha 24 anos, muito mais otimista e com aquela sorte que acompanha os marinheiros de primeira viagem. Depois de curtir o Rio e já ter torrado todo o meu orçamento, o que me restava eram os R$ 10 para pegar o Frescão pro Galeão. Era domingo, saí cedo do hostel e enquanto os cariocas se exercitavam no calçadão, eu esperava o busão. Um táxi parou do outro lado da rua. O motorista desceu e veio falar comigo. Me perguntou para onde eu estava indo, disse que ele morava na Ilha e me perguntou se eu não queria ir com ele. Meio desconfiada, mostrei meus Dezão e disse: “é tudo que eu tenho”. Ele parou. Pensou. Decidiu que não tinha problema. Estava indo pra lá mesmo, antes 10 do que nada. Me disse que se encontrasse outra menina sozinha como eu, faria a mesma oferta.

Eu aceitei. Ele colocou minha mala no porta-malas e eu entrei no carro. Sempre que lembro disso, penso na doideira que foi a história. Não sei se isso é comum. Mas ainda hoje me parece algo arriscado de se fazer. Talvez hoje eu não aceitasse. Na época, não me pareceu perigoso, como de fato se confirmou não ser. O motorista me levou tranquilamente para o Galeão. Não encontramos mais ninguém pelo caminho. Cheguei super cedo e paguei a corrida de táxi mais barata da minha vida. Vocês teriam feito o mesmo que eu?”.

Receber cantadas indesejadas

Meu modelito sensual pedindo cantada na primeira noite em Londres
Meu modelito sensual pedindo cantada na primeira noite em Londres

Pra finalizar, o meu relato:

Em 2011 fui pra Londres, cidade dos meus sonhos, pela primeira vez. Fiquei hospedada em um hostel perto da Piccadilly Circus, e resolvi passar no Tesco para comprar um lanchinho pra noite, depois de caminhar muito na capital inglesa. Fiz as minhas compras, passei no caixa, e estava colocando minhas coisas na mochila quando o caixa abandonou seu posto e veio correndo atrás de mim.

Meu primeiro pensamento foi “o que eu fiz de errado?”. Fiquei com medo de ter dado dinheiro a menos, de ter recebido troco a mais, sei lá. Gelei na hora. E eis que o rapaz me entregou uma nota fiscal com o telefone dele anotado no verso. “Me liga”.

Achei a história engraçada, fiquei pensando que romances no supermercado não eram coisa de filme, mas não tinha interesse algum no moço do caixa. Alguns dias depois a Mari, que morava em Dublin na época, se juntou a mim em Londres.

Eis que estávamos sentadas na beira do Tâmisa, fazendo hora pra nossa volta na London Eye e quem passa de bicicleta? O moço do Tesco. Não só passou como parou e ficou perguntando porque eu não havia ligado pra ele. Foi chato, foi insistente, e só desistiu quando nós inventamos que éramos namoradas.

Na época não achei essa história problemática, mas com o tempo fui me dando conta de como os homens se sentem à vontade para investir em mulheres sozinhas, especialmente turistas. Não diminuiu minha vontade de viajar, mas aumentou minha vontade de ver mudança no mundo.

E acima de tudo, ser mulher viajante é bom demais!

Fazer esse post foi bom demais. Pedi ajuda no Facebook, e uma amiga foi marcando a outra, e recebi vários relatos bacanas – infelizmente não deu pra aproveitar todos, pois o post ficou gigante. Mas quem quiser compartilhar uma história legal de viagem com a gente, é só escrever pra contato@viajadas.com.br. Vocês nos inspiram demais!

E pra quem gostaria de viajar sozinha mas não tem coragem, ou pra quem já foi e quer ajudar as amigas, tem o nosso grupo Minas Viajadas – um espaço só pra mulheres se apoiarem e se inspirarem pra explorar o mundo. Vem!

Feliz dia internacional da luta da mulher!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

13 comentários em “Ser mulher viajante é…”

  1. Quanto mais viajamos mais aprendemos! Viajar sozinha é libertador, mas ainda nos prende em alguns medos. Quem vai se sentar ao meu lado por 9 horas no avião? Vou ficar tranquila pra dormir? E o alívio de saber que quem vai sentar ao lado é uma mulher? É complicado, mas não abro mão!

  2. Caramba, admiro a coragem de vocês, sendo homem e conhecendo e sabendo que o homem é ruim por natureza, viajar mundo afora, dormindo em campings é o próprio wanderlust que fala mais alto. Parabéns meninas, não vou desejar coragem, porque isso vocês tem de sobra, só um pouco de precaução mesmo… rsrs

  3. Ótimo relato e experiências. Parabéns e mantenha sempre o espirito aventureiro.

  4. que post incrível, eu também sou das que gosta de viajar sozinha, é sempre uma sensação diferente, interessante saber as motivações de cada viajante!

  5. Adoro conhecer e saber que existem mulheres que não tem medo de se aventurar das mais diversas formas possíveis pelo mundo. Parabéns pelo seu texto, pelas suas experiências e pelo dia da mulher. Gde abraço!

  6. Ai, que mulherada maravilhosa! Adoro ler os relatos dessas mulheres que se jogam no mundo! Agora, vamos ser sinceros, a Stefania deu muita sorte de não dar ruim!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *